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23 de mai de 2013

Modelos para Plantação de Igrejas no Sertão Rural


Foto: Elio Rocha



Durante a produção da capa do nosso primeiro CD (De Sandália ou de Alpercata – 1996), observei Armando Rocha, irmão e artista plástico que pintava a tela usado um espelho para ver o andamento da sua arte. Pintava um pouquinho, parava e pelo espelho olhava como ia ficando, repetia este movimento várias vezes, enquanto pacientemente compunha, pincelada a pincelada, a sua obra. Porque ele usava o espelho?
- "Pelo espelho, vejo a pintura por uma ótica invertida. Isso me ajuda a ver defeitos que eu não veria olhando diretamente para tela", afirmou.

Outros artistas pintam um pouco e se afastam da tela, pintam um pouco e se afastam da tela. Vão repetindo este movimento à medida que seu trabalho vai avançando. Fazem isto porque mais afastados veem o conjunto da obra, percebem melhor o todo e não apenas os detalhes de um pequeno foco.

Estas duas situações se aplicam a experiência do nosso cotidiano. É importante que aprendamos a ver o que estamos fazendo olhando de longe; que vejamos o nosso trabalho como um todo e que não fitemos apenas os detalhes com os quais estamos entretidos. Precisamos ver o conjunto, a totalidade da obra. Também é importante que demos a devida importância a vermos as coisas por outra objetiva; que aprendamos a olhar de uma forma invertida (mesmo que isso não reflita, necessariamente, a nossa opinião).

Neste sentido, o ponto de vista que aqui expressamos sobre Modelos de Plantação de Igrejas no Sertão Nordestino, talvez soe como inadequado ou pretensioso, posto que o Sal da Terra é uma missão que ajuda a plantar e fortalecer igrejas. Não somos igreja enquanto instituição e não estamos plantando igreja. Temos acompanhado a obra da evangelização sertaneja olhando um pouco mais afastado e, por vezes, temos visto esta obra numa ótica invertida.

Olhando assim, tiramos três conclusões básicas:

1. Não há um modelo de igreja sendo plantado no sertão nordestino, portanto faz sentido o título deste capítulo "Modelos de Plantação de Igrejas no Sertão Nordestino".

2. Na diversidade de modelos, existem aqueles que são bíblicamente coerentes até aqueles que a gente olha e diz: "Está tudo errado!"
3. Não existe um pacote pronto, não há uma fórmula mágica. Para a tarefa de plantar igreja não existe um manual de procedimentos.

Deste modo e para facilitar nosso entendimento, subdividiremos os modelos que temos visto da seguinte forma:


1 – "Pentecostalóides":

É evidente a expansão de um grupo de cristãos cujo fundamento é uma interpretação equivocada da Bíblia, que mistura um pouco de razão à muita mística. Isso favorece os desvios doutrinários (às vezes absurdos), que produzem muito pouco ou quase nada para o Reino de Deus no sertão nordestino. Em muitos casos, mais atrapalha do que soma.

Este grupo está aberto para novidades e absorve todo vento de doutrina, ideias novas, agregando à fé em Cristo conceitos e interpretações da Bíblia absolutamente sem nexo. Aderem ao uso de frase de efeito, tais como: Tá amarrado, Determine, Tem que perseverar, além de um monte de palavras mágicas que no fim acabam indo do nada a lugar nenhum.

Os pentecostalóides têm com seus líderes uma relação que beira a idolatria. As instruções dadas por estes são seguidas a risca, sem quaisquer questionamentos. Aliás, por mais absurda que seja a direção, questioná-los é tido como algo temerário, um pecado.


2 – Adeptos da teologia do capitalismo:

Como o nome indica, os adeptos da teologia do capitalismo formam igrejas cuja doutrina é pautada na resposta divina aos votos financeiros. As "bênção$" de Deus são a arrecadação de dinheiro e o acúmulo de riquezas.

Pessoas que inspiram sua caminhada cristã na turma da mídia (um pequeno grupo de líderes religiosos que investem somas aviltantes em centenas de horas de rádio e TV para anunciarem milagres, sinais e prodígios espetaculares). Eles replicam, nas suas pequenas comunidades sertanejas, os cultos e estratégias que veem nos meios de comunicação, onde a máxima beira a barganha com Deus. Deste modo, uma quantidade razoável de seguidores da teologia do capitalismo tem fincado bandeira no solo sertanejo, seguindo o exemplo dos mestres midiáticos, apelando para os mesmos mecanismos. Convocam "sócios", usam campanhas de fé sempre anexadas a dinheiro, comercializam fetiches (ex. óleo ungido) e tantas outras práticas feitas em nome do Senhor para arrecadar dinheiro da clientela.

Ouvi de um destes líderes:
- Nós vamos tirar uma oferta e depois vou fazer uma oração, mas eu quero te dizer uma coisa: Se você ofertar muito, eu vou te abençoar muito, se você ofertar pouco eu vou orar pouco por você. E se você não ofertar, nem venha aqui na frente!

Recentemente, conversando com um obreiro que dirige uma pequena congregação aqui no agreste de Pernambuco, que os membros da sua congregação (entenda: dizimistas e ofertantes) foram comprados por um "plantador de igrejas" a R$ 500,00 per capita! Isso mesmo que você entendeu, as ovelhas de Cristo estão sendo vendidas!

3 – Evangélicos praticantes:

Assim como existe o católico praticante, temos no sertão o evangélico praticante, uma espécie de fundamentalista que resiste a tudo o que considera contrário aquilo que ele prega e acredita, mesmo que isso não tenha um base bíblica.

Temos trabalhado em uma comunidade que um dos principais obstáculos ao avanço do Evangelho é este tipo de discurso intolerante. Ouvimos de um líder local: "Aqueles ali, num tem jeito não!" Falou apontando para um grupo de jovens e adolescentes. "Porque?" Perguntamos. "Olhe as roupas que eles vestem! Nós os convidamos para assistirem aos cultos e eles não vêm!"

Na visão dos evangélicos praticantes a fé em Cristo está associada ao comportamento e ritos. Quem pensar diferente está fora do contexto, portanto, não é bem vindo ao grupo.

Jesus advertiu este comportamento farisaico, que colocam fardos sobre os ombros dos outros, mas que eles mesmos não querem mover com um dedo (Mt 23.4). Estes mesmos estão presentes nos nossos dias, uma "casta de religiosos sertanejos", que por sua prática de falso zelo, têm impedido a aproximação de tantas pessoas ao Evangelho de Jesus.


4 – Ativistas humanitários:


O povo brasileiro é, geralmente, generoso e solícito com aqueles que padecem diante de situações difíceis.

Nós experimentamos a manifestação da compaixão da nossa gente durante as duas últimas grandes tragédias que vivenciamos por aqui nos quatro últimos anos (uma das maiores cheias e umas da maiores secas que já foram registradas em nossa região). Recebemos e-mails de pessoas, igrejas e outras instituições com a mesma pergunta: "O que podemos fazer para ajudar?" Outros tantos vieram prestar socorro pessoalmente. Algo muito lindo de se ver!

Sendo este um exercício instituído pelo próprio Deus ("Dai-lhes vós mesmos de comer" - Lc. 9:13; "...quando fizeste a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" - Mt. 25:35-40), temos experimentado, não só nas calamidades, mas em muitas outras situações, o aporte de irmãos que vêm de muitos lugares do Brasil para socorrerem os sertanejos. Médicos, dentistas e tantos outros profissionais liberais; doações as mais diversas (brinquedos, alimentos e roupas), melhorias sanitárias e construções e tantos outros benefícios têm chegado ao sertão.

Vemos em nosso cotidiano, o Evangelho integral sendo posto em prática. Entretanto, é fato que algumas comunidades cristãs têm se envolvido tanto com a ação social, que estão perdendo a essência do seu chamado, afastando-se da sua função principal – ser Igreja, Corpo de Cristo. E em alguns casos desmerecendo a fé em Cristo e o seu caráter confessional.

Já encontramos pastor que não queria ser chamado de pastor com medo da reação da comunidade ("O que eles vão pensar de mim?").

Casos assim têm ocorrido com de líderes que se envolvem com a obra social a ponto de relegar a fé em Cristo a um segundo plano, transformando assim suas igrejas em meros instrumentos de apoio social.


5 – Cristãos:

Graças a Deus, temos encontrado grupos de cristãos espalhados pelo sertão. Igrejas no melhor sentido da palavra. Comunidades formadas por gente pecadora, mas que um dia encontrou-se com Cristo, teve sua vida transformada e que entende que deve dar de graça aquilo que de graça recebeu. Que entende que o Evangelho é poder de Deus e que este poder é restaurador e transformador. E que esta transformação pode e deve ser completa - no corpo, na alma e no espírito.

Gente que está disposta a entregar-se em oração. Se for preciso renuncia conforto, bons salários e as comodidades da vida na cidade grande, afim de alcançar alguns destes discípulos de Jesus.

Um povo que usa de todos os meios possíveis e todas as oportunidades para falar do amor de Deus e das grandezas do Seu reino.

Oremos por este grupo para que cada recanto seja alcançado por gente assim, que unida vai à luta pelo surgimento de igrejas saudáveis.


Ao Senhor da Igreja, toda glória!

Marcos Sal da Terra


Leia mais: Reflexões


Um comentário:

  1. VEMOS MUITAS IGREJA EVANGÉLICAS LOTADAS. MAS HÁ QUALIDADE?
    VEMOS MUITOS LÍDERES QUE ATÉ SÃO "IDOLATRADOS"
    QUE GALARDÃO ELES ESPERAM?

    EU ACHO QUE EXISTEM MUITOS LÍDERES QUE ENSINAM O POVO A PROCURAR A DEUS PRA BENEFÍCIO PRÓPRIO, MAS NÃO EXORTAM PRA TER UMA QUALIDADE MELHOR DE VIVER UMA VIDA COM CRISTO.

    PRA ALGUMAS IGREJAS "SER CRENTE" TEM QUE ORAR EM LÍNGUAS, TER PROFECIAS, SER RICO, TER POSSES, SE BONITO... MAS A VIDA COM CRISTO, POUCO SE ENSINA.

    O CRENTE OU O CRISTÃO PRECISA SER COMO O APÓSTOLO PAULO QUE SABIA VIVER COM POUCO, COM MUITO E PODIA TUDO NAQUELE QUE LHE FORTALECIA...

    DEUS QUER QUE VIVAMOS BEM? CLARO QUE SIM!
    MAS ELE QUER QUE VIVAMOS COM ELE. CAMINHEMOS COM ELE...

    NEM DIGO AS IGREJAS, MAS OS LÍDERES PRECISAM ENSINAR AS SUAS OVELHAS A TER UM COMPROMISSO SÓLIDO COM CRISTO.


    JOSENILDO ELIAS. MACEIÓ-AL

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